Uma oficina de Sociologia.

No mundo moderno, desenvolveu-se e incorporou-se a compreensão de que o trabalho é uma dimensão alheia à vida pessoal. A ideia geral é a de que trabalhamos muito todos os dias e “aproveitamos a vida” nos raros momentos de lazer. Isso é verdade para quase todas as formas de ganhar a vida, inclusive para os que trabalham com a Sociologia. Mas não necessariamente precisa ser assim ou apenas dessa forma. Este ofício pode se desenvolver de forma artesanal e o sociólogo pode e deve ter a sua oficina.

O surgimento dos intelectuais

Lendo o livro de Jacques Le Goff sobre os intelectuais na Idade Média, descobri que os intelectuais, mais ou menos como os conhecemos no período atual, surgiram por volta dos séculos XI e XII. E que o aparecimento desta categoria de indivíduos estava diretamente ligado ao desenvolvimento dos centros urbanos e das corporações. Essa passagem remete à primeira parte do livro, que ainda trata do período anterior às universidades como um ambiente de corporação de intelectuais. A obra cobre o período que vai até o século XIII.

Os intelectuais eram criaturas ligadas ao ambiente urbano nascente e ao modo de produção artesanal. A novidade que a leitura de Le Goff me apresentou foi conhecer e imaginar esse grupo de pessoas que trabalhava com o conhecimento de maneira similar aos artesãos. Viventes que tinham a leitura, a escrita e a fala como ofício. Com um pouco de esforço criativo, é possível visualizar o local de trabalho e os instrumentos utilizados na sua prática.

Entretanto, o correr da história transformou essa realidade. Nos séculos seguintes, outros grandes movimentos culturais surgem na Europa e ganham o mundo. Surge o renascimento, a reforma protestante e, mais adiante, o iluminismo. Trata-se de um grupo heterogêneo. Mas, de forma geral, desenvolve-se um modo de vida ligado às letras, na leitura, na escrita e na fala, aulas e debates.

A transição do modelo artesanal para o modelo da divisão do trabalho

A revolução industrial e o surgimento do capitalismo transformaram a forma de trabalhar e, consequentemente, a forma de compreender o mundo. Isso é digno de nota, porque aqueles que viviam das letras também se transformaram no decorrer deste processo. O que antes era feito de forma artesanal, se torna trabalho alienado, ou seja, gradualmente se perde a compreensão do todo no processo produtivo. Isso é o que ocorre em grande escala ligado às atividades manuais, que passam a ser desempenhadas pelas máquinas, mas, em alguma medida, todos são afetados.

O trabalho das oficinas dos artesãos migra para as linhas de montagem que tiveram o seu auge no modo de produção fordista já no século XX. Os intelectuais nestes idos estão em sua maioria nas universidades. O campo acadêmico, como bem descreveu Pierre Bourdieu em suas obras, cria suas regras. Torna-se um espaço de disputas. O conhecimento passa a obedecer às regras da produtividade em um ambiente de superespecialização. O intelectual da Idade Média e do renascentismo ficou na história.

Quando o sociólogo é apenas um técnico

A Sociologia nasce oficialmente como disciplina acadêmica no século XIX. Foi criada com o objetivo de explicar as transformações que permitem o surgimento do mundo capitalista moderno, sendo também parte desta realidade. Daí em diante, se firma no mundo acadêmico, nas universidades e também ocupa outros espaços no mercado de trabalho.

Apesar de ser uma disciplina relativamente nova no mundo acadêmico, ela passou por diversas transformações no decorrer de sua existência. Inicialmente, buscou inspiração nos métodos das ciências naturais, como a biologia e a física. Tinha características bem mais quantitativas do que qualitativas. Mas, à medida que a disciplina se estabeleceu, esse quadro foi se modificando e ficando mais próximo do que conhecemos atualmente, com metodologias predominantemente qualitativas.

Ao longo do século XX, o trabalho do sociólogo passou a ser visto como um trabalho técnico. O seu fazer profissional, em muitos casos, esteve ligado a pesquisas desenvolvidas em campo para atender os mais variados objetivos das diferentes instituições nas quais estavam inseridas.

Nesses dois casos, o acadêmico que trabalha em ritmo de linha de produção e o técnico contratado para entregar pesquisas quantitativas que atendem aos objetivos das instituições públicas ou privadas que o contratam, a sociologia se afasta do ideal do artesanato. A princípio, não há nada de errado nisso, trata-se de um sinal dos tempos, ou seja, daquilo que se esperava dessa ciência nesse contexto social.

Entretanto, os caminhos que remetem o seu fazer como algo artesanal, não alienado, também se constituíram no interior da própria disciplina ao longo do tempo por sociólogos de perspectivas às vezes bastante diversas.

Contrapontos à divisão do trabalho no fazer sociológico

Ainda no século XIX, Marx, criticando a unilateralidade produzida pela sociedade capitalista, que obriga o indivíduo a desenvolver apenas uma atividade produtiva, atrofiando suas demais capacidades, chamava a atenção para a formação integral dos indivíduos. Ou seja, livre para desenvolver suas habilidades sem a obrigação de desenvolver apenas um ofício para sempre, seria possível escapar da alienação típica da sociedade da divisão do trabalho.

No século XX, Charles Wright Mills, sociólogo americano, na sua obra “A imaginação sociológica”, desenvolveu esta perspectiva em relação ao trabalho específico do sociólogo. Para ele, a imaginação sociológica permitiria uma integração entre a vida pessoal e o trabalho intelectual.

Seguindo o raciocínio de Mills, podemos dizer que o sociólogo desenvolve um trabalho de artesanato intelectual. Ele incorpora o seu ofício à própria vida, domina o processo de sua criação e faz da sua arte seu viver. Nessa perspectiva, a sua atividade não se restringiria apenas a um emprego formal, ou no âmbito da sociedade capitalista, uma atividade alienada. Seria um ofício cujo praticante dominaria profundamente e do qual teria compreensão do seu papel social. Uma atividade que, longe de o prender a uma rotina mecânica e sem sentido, seria libertadora.

No famoso texto sobre o artesanato intelectual, no livro “A imaginação sociológica”, Wright Mills indica os passos para este fazer artesanal. Destaco com minhas próprias palavras alguns deles abaixo:

  • União entre vida e trabalho.
  • Desenvolvimento de um arquivo (caderno).
  • Uso da imaginação sociológica para compreender a relação entre questões individuais e questões públicas.
  • Ter a mente aberta para observar a realidade e tentar entendê-la, rearranjando conceitos, reinterpretando o que já está estabelecido, enfim, desenvolver novas perspectivas sobre a realidade. 

Afinal, o que seria uma oficina de sociologia?

Ainda hoje, o  sociólogo basicamente faz três coisas no decorrer da sua vida profissional: lê, escreve e fala. Penso que essas três tarefas constituem a sua oficina de Sociologia, caso seja fiel aos métodos e teorias sociológicos e não corra o risco de apenas reproduzir o senso comum. Ou seja, que a incorporação dessas ideias, teorias, formas de fazer e compreender esteja em sintonia profunda com o seu ser. 

Não se trata de perfeição, mas de um longo processo de desenvolvimento pessoal que vai além da formação acadêmica. Algo inserido no cotidiano, um constante treino do olhar, da escrita e da fala. E aqui remeto à leitura de Le Goff e imagino o longuíssimo período de formação de um aprendiz até que se formasse artesão e assumisse sua própria oficina.

Por suas próprias características, fazer sociologia diz respeito a um ofício que tende a envolver boa parte da vida daqueles que o seguem por gosto. E isso é muito interessante, se estamos pensando na união entre a vida e o trabalho de forma saudável. O laboratório do seu praticante é o mundo. Todas as experiências sociais com as quais convive ou toma conhecimento podem se tornar objeto de estudo, quando menos, de uma curiosidade e um olhar diferente. Uma vez nesse caminho, não é fácil desligar o “modo sociólogo” de ser.

Suas ferramentas são os seus livros, cadernos ou equivalentes como editores de texto, sua experiência e a sua fala. Wright Mills dá muita ênfase à questão da organização das anotações.

Recuperar o sentido do trabalho

Seu método é a observação, o diálogo, as anotações e a organização dos seus textos que eventualmente podem ser utilizados em suas aulas, textos acadêmicos, ou para outros tipos de trabalho. E para espaços não formais, como, por exemplo, uma página na internet ou um canal no YouTube ou ainda, e talvez principalmente, para a sua própria compreensão do mundo.

Assim, seguindo os conselhos de Wright Mills, ao incorporar o seu trabalho à sua forma de viver, fora dos espaços formais de trabalho, o sociólogo costuma ter seu lugar de leitura e escrita. Seja preparando uma aula, lendo, escrevendo ou simplesmente pensando na vida.

É a sua oficina. Espaço para repetir, repensar e recriar o significado do seu fazer e da sua vida.

Referências e recomendações de leitura

CASTRO, Anna Maria de; DIAS, Edmundo F. Introdução ao pensamento sociológico. Rio de Janeiro: Eldorado, 1981. 

LE GOFF, Jacques. Os intelectuais na Idade Média. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1972.